Sexta-feira, 13.05.11

Digo Alentejo

Digo para ver

Sophia

 

Aos meus Avós,

Amélia e Francisco,

Maria Joana e João,

Antónia e Aurélio

 

Digo Alentejo e sinto em mim ressonâncias de um tempo antigo e distante. O tempo em que festejavam o dia dos meus anos, o tempo em que eu era mais eu, porque me desconhecia.

Tudo começou ainda antes de eu nascer. Nesse Alentejo mítico dos meus bisavós, avós e pais. Nesse Alentejo onde eu nunca nasci, mas que era “a minha terra” de férias grandes e de mornas sestas embaladas pela voz da minha avó: “Dorme, dorme, meu menino…”

Digo Alentejo e recordo o calor da paisagem e a exalação das searas quietas, a frescura da manhã quando ainda se viam estrelas no céu e juntos caminhávamos para a horta, a regar o lindo emaranhado de feijões verdes agarrados às canas secas, que eu continuo a detestar por serem verdes.

Sempre me fascinava observar o trilho das águas através da terra seca e a vida que rodeava o poço antigo e fresco: cobras, mosquitos, abelhas, lagartixas e flores, muitas flores, sempre-vivas, que levávamos para casa para sempre.

Digo Alentejo e vêm-me à memória dos sentidos os campos amarelos, as amoras cheias de pó que deixavam uma nódoa negra eterna e que diziam aos nossos pais “já namoras”, os canchos duros que quebravam a lisura da paisagem, onde se encostavam os sobreiros, as azinheiras, as verdes oliveiras a quem batíamos para darem mais azeitonas quando chegasse o Inverno…

E como esquecer o repetido eco das cigarras, zurzindo a calma da tarde flamejante, o som dos grilos escondidos nos buraquinhos do chão, única perturbação das sestas em cima da cama, na escuridão fresca de cal do meu quarto de menino.

Digo Alentejo e lembro-me dos doces que tias e avós me davam generosamente e que eu guardava como um tesouro açucarado dos carreiros teimosos das formigas.

Evoco as missas onde aprendia palavras estranhas, “súplicas, preces, oblações” que ninguém me sabia explicar de tão mágicas e repetidas e sagradas, como num encantamento em que o importante não é a palavra, mas o som, o desejo, o gesto, o ritual de água e azeite num alguidar, contra o mau-olhado, a lua, o sol, o vento suão… e que sempre curavam todos os males do corpo e da alma.

Digo Alentejo e vejo caras enrugadas e sem dentes, mãos grandes e deformadas, ásperas, secas, corpos pequenos e apoiados por bengalas, num passo cadenciado e lento, arrastado de ternura e vida, de anedotas do Bocage e lembranças da miséria que era dividir uma sardinha por quatro, milagre digno de um Messias distante no tempo e na história.

São essas caras que já não vejo quando te visito, Alentejo, terra sagrada que guardas as minhas memórias e os meus antepassados saudosos, e onde me reencontro comigo mesmo.

Digo Alentejo e sinto-te cá dentro do peito a bater, o teu calor, o teu frio, o teu excesso, a tua teimosia, o teu fogo me guiam e acompanham agarrado aos genes e aos gostos, ao esforço que ninguém te reconhece, Alentejo, por inveja e anedota dos que não te conhecem, nem às tuas boas gentes.

Por isso te celebro nestas palavras e te eternizo, Alentejo, minha terra onde não nasci, mas onde me conheci, Verão a Verão, férias a férias, numa cadência certa de Natais, Carnavais, Páscoas e Senhoras da Graça, com missa, procissão e quermesse, com bailes em que os homens ficavam a ver as mulheres dançar umas com as outras, de vergonha, touradas à vara larga, numa perfeição cósmica sem mudanças nem sobressaltos.

Digo Alentejo e a própria palavra ganha novos significados, foge-me da etimologia certa e segura e transforma-se num tempo perpétuo, num espaço deslocado que me acompanha, num cheiro a ervas secas e a pó, num sabor a melancia madura a escorrer pelos cantos da boca, num horizonte distante da memória do que foi e é para mim Alentejo.

 

JM

 



publicado por OPTD às 18:04 | link do post | favorito

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